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O destino das pequenas livrarias

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.04.09

 

You've Got Mail não desenvolveu tanto a ideia de simulação, como o original The Shop Around the Corner, mas acompanhou a versão original.

Sim, You've Got Mail não seguiu o caminho da simulação que a internet permite até ao limite, em que as pessoas constroem identidades e fantasiam vidas interessantes. Fixou-se essencialmente na sensação confortável de quem fala com um desconhecido e depois, na sensação vantajosa de quem já sabe quem é o outro masnão se descose.

Aqui as personagens da Meg Ryan e do Tom Hanks limitam-se a esconder-se por trás dessa situação confortável, mas não pretendem desviar-se da autenticidade.

Tom Hanks, aliás, revela-se até bem mais sensível e vulnerável do que Jimmy Stewart (bem mais sinuoso e auto-confiante), o que não cola lá muito bem com a sua faceta de empresário implacável.

De qualquer modo, o tom geral de You've Got Mail é de comédia romântica, sem pretensões de aprofundar o tema.

 

As personagens secundárias estão aqui bem conseguidas, refiro-me aos respectivos namorados, ambos ligados à vida cultural da cidade: um, crítico cultural, um pouco (muito?) vaidoso, mas ainda assim, leal e generoso; outro, editora de sucesso, ambiciosa, hiperactiva, e com olho para descobrir talentos.

 

Alguns momentos fabulosos:

- um, hilariante: a cena em que o namorado da Meg Ryan é entrevistado na televisão e fica todo babado com a atenção (e atracção) que exerce na jornalista. Os comentários da Meg Ryan, a assistir à gravação do programa, são mesmo fora de série!

- um momento crítico em que, por pouco, a tia e o sobrinho do Tom Hanks não denunciam a sua verdadeira identidade, quando o miúdo soletra F-O-X na livraria da Meg Ryan.

- a avaria do elevador, que deixa encravados Tom Hanks, a namorada e o recepcionista. É aqui que Tom Hanks se confronta consigo próprio e as suas novas prioridades.

 

Interessante no filme é o destino das pequenas livrarias. A sua atmosfera própria, o calor humano lá dentro, leituras de histórias infantis, dedicação e carinho nos pormenores... engolidas ou erradicadas do mapa pelos grandes espaços comerciais.

Essa é, a meu ver, a perspectiva mais interessante do filme.

As pequenas livrarias, o seu tempo próprio, a sua atmosfera, a acompanhar as pessoas, as suas vidas, as suas rotinas, as suas preferências... e até a antecipar-se, com sugestões...

À dimensão humana.

 

 

 

Obs.: Dois outros filmes mostram-nos livrarias assim...

Um, Turtle Diary (1985), com o Ben Kingsley (empregado numa livraria) e a Glenda Jackson (escritora em crise criativa) a libertar duas tartarugas gigantes no mar, com a ajuda preciosa (e de retaguarda) do Michael Gambon (o tratador delas no zoo). Cumplicidades poéticas...

Outro, Notting Hill (1999), com o Hugh Grant (o livreiro) e a Julie Roberts (famosa actriz americana, refiro-me à sua personagem no filme)...

 

 

 

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publicado às 15:32

Jane Eyre

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.04.09

 

Jane Eyre fascinou-me na adolescência. Aquelas personagens! A rapariguinha com aquela força de carácter! Parecia mais um espírito andarilho do que uma mulher. E no entanto... tão capaz de paixão e de afectos!
E Rochester... o sombrio Rochester...


Vi recentemente o clássico Jane Eyre com a Joan Fontaine e o Orson Welles. O filme não me impressionou por aí além.
Por isso me agradou tanto ver na Rtp2, e por duas vezes, uma excelente série para televisão. (1) Muito equilibrada, os actores bem dirigidos, as cenas muito bem concebidas. E uma Jane e um Rochester muito comoventes. Aquele final feliz...

Porque me tocou tanto esta Jane andarilha e este Rochester sombrio?
Um Rochester sombrio, preso ao passado, a querer viver o amor... E aquela frase: Não somos do género platónico...
E não são. Os reencontros entre risos e lágrimas, “dois irmãos gémeos”. E a comunicação à distância: Espera por mim...


Acho enternecedora a forma como estas escritoras construíram personagens femininas tão fortes, decididas, cultas e autónomas. E como os homens, enquanto personagens, as aceitam como iguais.
Terá sido assim com Charlotte Brontë ou ter-se-á projectado num futuro idealizado? (2)

Também enternecedora esta filosofia tão feminina da generosidade, da distribuição dos bens por todos, de colocar a família à frente do individual.
E como acaba tudo bem. Jane, Rochester e o filho. E a recuperação de alguma da visão perdida. E a família toda unida, finalmente.
Depois de todas as atribulações, desencontros, solidão, sofrimentos, é assim que eu gosto de ver tratadas as minhas personagens bem-amadas.

 

 

 

 

(1) Série de 2006, realizada para televisão, por Susanna White. A adaptação do romance de Charlotte Brontë por Sandy Welch e magníficos actores nos principais papéis: Ruth Wilson (Jane Eyre) e Toby Stephens (Rochester). Se bem que o Rochester do livro não devia ser tão jeitoso, mas enfim... este Rochester é o mais agradável de todos os Rochester que vi... e assim para sempre ficará ligado, na minha memória, ao Rochester do livro.


(2) Brontë, name of three Englisn novelists – the sisters Charlotte Brontë (1816-55), Emily (Jane) Brontë (1818-48), and Anne Brontë (1820-49) – who's works, transcending Victorian conventions, have become beloved classics. All three, and their brother (Patrick) Branwell Brontë (1817-48), were born in Thornton, Yorkshire... . Their father, Patrick Brontë (1777-1861), who had been born in Ireland, was appointed rector of Haworth, a village of the Yorkshire moors... . In 1824, when their mother died, Charlotte and Emily were sent to join their older sisters Maria and Elizabeth at the Clergy Daughters' School in Cowan Bridge; this was the original in which was modeled the infamous Lowood School of Charlotte Brontë' novel 'Jane Eyre'. … In 1831 Charlotte went to school in Ro Head, returning home a year later to continue her education and teach her sisters. She returned to Roe Head in 1835 as a teacher, taking Emily with her. In 1842, conceiving the idea of opening a small privarte school of their own, and to improve their French, Charlotte and Emily went to Brussels, to a private boarding school. The death of their aunt, who had kept house for the family, compelled their return. Emily stayed at Haworth as housekeeper. Anne bacame governess in a family, where she was joined as tutor by Branwell, who had failed first as a portrait painter and then as a railway clerk. Charlotte went back to Brussels, her experiences there forming the basis of the rendering, in 'Villette' (1852), of Lucy Snow's loneliness, possibly the most terrifying depiction of human isolation in English literature. In 1845 the family was together again. … Each sister then embarked on a novel. Charlotte's 'Jane Eyre' was published first, in 1847; Anne's 'Agnes Grey' and Emily's 'Wuthering Heights' a little later that year. Speculation about the authors' identities was rife until they visited London and met their publishers.... 'Jane Eyre' 's popularity has never waned; it is the most impassioned expression of feminism in English. … (em: Funk & Wagnalls New Encyclopedia, 1979, vol. 4)

 

 

 

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publicado às 11:31

"Vou ali abaixo defender os meus direitos"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.04.09

 

Esta line do Marlon Brando é já perto do final. On the Waterfront deixou-me uma marca para sempre... e logo à primeira. E já o devo ter visto umas cinco vezes...


Aquela atmosfera só podia ter sido conseguida pelo Elia Kazan. Uma atmosfera densa e tensa, do início ao fim. Em que o próprio ar parece ter electricidade.
As imagens são tão poéticas, mesmo toda aquela zona descaracterizada do porto... e aquele parque... e aquelas ruelas sombrias...
E as personagens... De todas, a mais improvável, o Terry Malloy, promissor lutador de boxe profissional, que podia ter sido alguém, como o próprio dirá ao seu irmão corrupto, ao das apostas e das manobras de intimidação do Sindicato. Improvável, por ter crescido entre mafiosos, com os valores distorcidos, mas que lhes resiste sempre, até ao fim. É certo que, para sobreviver até ali, obedecera sempre ao irmão, mas sem passar os limites. Até perceber que não podia ser neutro.
E é uma rapariguinha saída de um colégio de freiras, que lho vai mostrar. É a coragem e a convicção da rapariga que o irão pôr em acção. A rapariga que aparece na sua vida da forma mais estranha: ele sabia quem lhe matara o irmão, era testemunha de um crime. Mas será apenas mais tarde, com a morte do seu próprio irmão, que avançará com a denúncia dos criminosos.


Todas as cenas no telhado, onde Terry cuida dos pombos, são verdadeiramente poéticas... É como se tudo fosse simbólico: o céu (telhado), a paz (pombos), e lá em baixo... a luta e a morte.
Assim como todas as cenas ao longo do parque... aqueles diálogos poéticos... o que se diz, o que fica por dizer e o que fica suspenso...
Todas as cenas destes dois, tão diferentes, e no entanto, tão milagrosamente próximos. De tal forma próximos que é essa proximidade que os irá transformar. Ele, acordar para a revolta e para a exigência dos seus direitos. Ela, para assumir a sua sensualidade e aprender a confiar no amor.


Também é um Padre, o corajoso Father Barry, que lidera a resistência pacífica destes homens explorados e subjugados. E todo o seu discurso nos dirige para os valores cristãos, ali tão esquecidos. É o pai protector, no fundo, que nunca os abandonará. É interessante ver, antes mesmo da possibilidade de uma nova Igreja sonhada, a de João XXIII, esta Igreja do Father Barry, mais próxima da vida real e dos homens que sofrem. A cena no armazém, depois da morte de um homem que arriscou desmontar o controle do Sindicato, em que o Padre se refere a esse Cristo também ele morto pela verdade e dignidade dos homens, é verdadeiramente comovente.


E chegámos à line do rapaz já homem: Vou ali abaixo defender os meus direitos.
A luta final (e desleal) com o Johnny Friendly deixam-no fora de combate, e é um homem ensanguentado e cambaleante que vemos aparecer, passo a passo, para iniciar um novo dia de trabalho nas docas. Já sem o domínio e controle do Sindicato. Porque só assim os outros homens, que ali trabalham, o seguem.

 

Os homens têm esta marca registada do predador-vítima, esta violência hereditária. E da cobardia que se refugia tantas vezes no grupo e que aceita o inaceitável. E que precisa do sacrifício de uma vítima para acordar.
A dignidade conquista-se, essa é outra das mensagens. Nunca é garantida. (Ainda não é a liberdade como a da estátua, a do símbolo americano, porque um homem livre pode escolher e estes homens estão condicionados à vida das docas).
A dignidade de um trabalho, ainda que simples, mede-se pelo seu reconhecimento e pelo respeito da comunidade, e é um bem precioso. E numa altura em que vemos novas formas de exploração do próximo (e de domesticação) é uma mensagem fundamental.


Há milagres da natureza, como este jovem destinado a uma vida irregular e criminosa, mas cuja sensibilidade, pacífica e leal, o liberta dessa programação.


O amor pode surgir de dois mundos diversos e paralelos: a casca protectora de uma família carinhosa e de um colégio fechado (a rapariga) e um meio hostil e violento onde não há afectos mas apenas manipulação (o rapaz).

 

 

 

Aqui também, a navegar...

 

 

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publicado às 08:22


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